JORGE DE SENA

Jorge de SenaJorge de Sena sempre se sentiu injustiçado em vida, e até mesmo depois da sua morte foram raros os momentos em que lhe foi feita justiça enquanto homem e enquanto cidadão.
Tendo sido um dos mais ecléticos autores portugueses do século XX, a sua obra estende-se desde a poesia à prosa, ao drama, ao ensaio, à investigação, à história da cultura, tendo exercido a profissão de engenheiro mas também de professor.
Infelizmente, ainda hoje a mentalidade do «Reino da Estupidez» que tanto criticou nos portugueses continua a fazer-se sentir e a votar a sua enorme obra (e a sua personalidade) a um esquecimento subtil que persiste em negar-lhe o lugar a que tem direito na cultura portuguesa.
Esperamos que esta insignificante homenagem contribua, mesmo que muito pouco, para divulgar o seu nome e a sua obra, por muito que se continue a ignorá-lo nos programas de literatura portuguesa e na generalidade da sociedade.
Há uma generosidade implícita neste homem, que mesmo depois de exilado nos Estados Unidos, escreveu na língua portuguesa alguns dos mais belos poemas da literatura portuguesa moderna, tendo dedicado a Luís de Camões alguns dos seus estudos literários mais significativos.

João Carlos Costa

                        

Jorge de Sena
Jorge de Sena
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Jorge de Sena
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Jorge de Sena
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Jorge de Sena
Jorge de Sena
Jorge de Sena
De Jorge de Sena muito se pode dizer: que foi um bom ou mau engenheiro, que foi homem de boas ou más famílias, que foi emigrante à força, como tantos outros, que foi um poeta como muito poucos.
E se houve da parte de Sena uma grande dedicação à literatura, e à literatura portuguesa em particular, o mesmo não aconteceu neste país, em relação a este grande escritor e conhecedor da sua realidade tanto literária como social.

Escrevia Sena em 1972, num poema intitulado "Nota a uma Paráfrase":

Esclareça-se: uma coisa é literatura
Comprometida ou não, e uma outra coisa
É literocambada, ou seja uma pandilha
Ou várias assaltando à naifa e gritos
De a bolsa ou a vida. Inútil é fingirem
Que são das letras ou qualquer política:
Vieram para elas, baba da afluência,
Por não haver já viela onde as facadas rendam.

Passado que foi o tempo em que dele se falou nos jornais e nas revistas autorizadas só porque morreu, falemos dessa obra única que tanto deu à poesia portuguesa e de que muito pouco se fala e se escreve.

Ainda em vida, Jorge de Sena conheceu o reconhecimento que a escrita oficial lhe deu, quer fossem os escribas oficiais do regime quer os escribas da oposição que lhe deram o reconhecimento que se ficou pela edição de alguns dos seus livros e por algumas (raras) linhas nas páginas de publicidade dessas revistas que, quase sempre, o afastaram do lugar de destaque que mereceu e merece.
Obrigaram-no a sair do país, obrigaram-no a escrever a sua obra num país que não era o seu. E só nesses Estados longínquos da América, depois de morto, teve a homenagem que lhe devia ter sido feita em vida.
Ainda hoje esquecem o seu nome quando falam dos poetas de língua portuguesa, a ele que foi um dos que melhor soube ultrapassar as influências que a obra de Fernando Pessoa criou na escrita poética do século XX, e que sempre se preocupou com o que por cá se ia escrevendo. Tal como o esquecem no resto, na dignificação do seu nome, na homenagem que, por exemplo, um nome de escola lhe podia dar.

A sua escrita poética, das mais atentas e, também, das mais complexas, é uma das mais fascinantes do século. Lembremo-nos, por exemplo, dos poemas que integram o seu livro Metamorfoses; e de um desses poemas em particular, «O Balouço, de Fragonard», em que a emoção de ver um quadro se torna em escrita, que transparece o erotismo e a ironia já, de certo modo, característicos em Jorge de Sena:

Como balouça pelos ares no espaço
entre arvoredo que tremula e saias
que lânguidas esvoaçam indiscretas!
Que pernas se entrevêem, e que mais
não vê o que indiscreto se reclina
no gozo de escondido se mostrar!
Que olhar e que sapato pelos ares,
na luz difusa como névoa ardente
do palpitar de entranhas na folhagem!
Como um jardim se emprenha de volúpia,
Torcendo-se nos ramos e nos gestos,
Nos dedos que se afilam, e nas sombras!
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

O problema da heteronimia da escrita pessoana foi aqui ultrapassado por um hábil processo de escrita que procurava encontrar um outro modo de conseguir elidir o sentimentalismo imediato ou o panfletarismo evidente. Sentindo e descrevendo obras de arte ou, até, como em Arte de Música, obras musicais, esta poesia relaciona-se com um outro real, sendo, ao mesmo tempo, uma escrita emocionada e "cerebral":

A Piaf

Esta voz que sabia fazer-se canalha e rouca,
ou docemente lírica e sentimental,
ou tumultuosamente gritada para as fúrias santas do "Ça ira",
ou apenas recitar meditativa, entoada, dos sonhos perdidos,
dos amores de uma noite que deixam uma memória gloriosa,
e dos que só deixam, anos seguidos, amargura e um vazio ao lado
nas noites desesperadas da carne saudosa que não se conforma
de não ter tido plenamente a carne que a traiu,
esta voz persiste graciosa e sinistra, depois da morte,
como exactamente a vida que os outros continuam vivendo
ante os olhos que se fazem garganta e palavras
para dizerem não do que sempre viram mas do que adivinham
nesta sombra que se estende luminosa por dentro
das multidões solitárias que teimam em resistir
como melodias valsando suburbanas
nas vielas do amor
e do mundo.

Quem tinha assim a morte na sua voz
e na vida. Quem como ela perdeu
toda a alegria e toda a esperança
é que pode cantar com esta ciência
do desespero de ser-se um ser humano
entre os humanos que o são tão pouco.

De 40 Anos de Servidão, o poema «O País dos Sacanas»:

Que adianta dizer-se que é um país de sacanas?
todos o são, mesmo os melhores, às suas horas,
e todos estão contentes de se saberem sacanas.
Não há mesmo melhor do que uma sacanice
para fazer funcionar fraternamente
a humidade da próstata ou das glândulas lacrimais,
para além das rivalidades, invejas e mesquinharias
em que tanto se dividem e afinal se irmanam.

Dizer-se que é de heróis e santos o país,
a ver se se convencem e puxam para cima as calças?
Para quê, se toda a gente sabe que só asnos,
ingénuos e sacaneados é que foram disso?

Não, o melhor seria aguentar, fazendo que se ignora.
Mas claro que logo todos pensam que isto é o cúmulo da sacanice,
porque no país dos sacanas, ninguém pode entender
que a nobreza, a dignidade, a independência, a
justiça, a bondade, etc., etc., sejam
outra coisa que não patifaria de sacanas refinados
a um ponto que os mais não são capazes de atingir.
No país dos sacanas, ser sacana e meio?
Não, que toda a gente já é pelo menos dois.
Como ser-se então neste país? Não ser-se?
Ser ou não ser, eis a questão, dir-se-ia.
Mas isso foi no teatro, e o gajo morreu na mesma.

Uma das coisas que Sena sempre levou consigo para os lugares por onde andou, foi "a dor de haver nascido em Portugal / sem mais remédio que trazê-lo n'alma" (in «Aviso de Porta de Livraria», Exorcismos. E, quando se referia a Portugal, fazia-o de uma maneira muito pessoal, utilizando uma ironia nem sempre óbvia mas quase sempre presente na sua poesia. Poesia que não é fácil, já o dissemos, que não transparece de uma leitura superficial, mas que é, isso sim, trabalhada com um labor extremo e meticuloso, trabalho esse que Sena também levava para os poemas que traduzia.

O humor que muitas vezes utiliza nes-ses seus poemas e prosas é, além de muito característico, uma visão pessoal que muito reforça a sua escrita e que muito atrai quem o lê atentamente.
A visão que se abre através de uma ironia frequentemente atroz é amarga e triste, mas é também uma visão de alguém cujo sentimentalismo está notoriamente expressa nesses mesmos poemas.

Falámos já de como esse sentimenta-lismo está longe de ser óbvio e fácil, quando lembrámos poemas de Arte de Música ou de Metamorfoses. Lembremo-nos agora desse pequeno grupo de poemas admiráveis que se intitula Sobre Esta Praia, Oito Meditações à Beira do Pacífico.

A escrita de Sena está aqui transformada numa observação de gestos e práticas amorosas, descritas através de corpos que se amam e de um erotismo que transparece dessa linguagem a que já alguém chamou "atento, lúcido e permanente diálogo que se estabelece ou irrompe entre o mundo objectivo e subjectivo" (Fernando Guimarães, in Estrada Larga 3). Vejamos este poema de Sobre Esta Praia:

Sobre esta praia me inclino.
                        Praias sei:
me deitei nelas, fitei nelas, amei nelas
com os olhos pelo menos os deitados corpos
nos côncavos da areia ou dentre as pedras
desnudos em mostrar-se ou consentir-se
ou em tombar-me intentos como o fogo
do sol em dardos que se chocam brilham
em lâminas faíscas de aço róseo e duro.
Do Atlântico ondas rebentavam plácidas
e o delas ruído às vezes tempestade
que em negras sombras recurvava as águas
me ouviram não dizer nem conversar
mais do que os gestos de tocar e ter
na tépida memória as flutuantes curvas
de ancas e torsos, negridão de pelos,
olhos semicerrados, boca entreaberta,
pernas e braços se alongando em dedos.
Aqui é um outro oceano.
                         Um outro tempo.
Miro dois vultos na silente praia
pousada rente à escarpa recortada abrupta
que só trechos de areia lhe consente:
dois corpos lado a lado como espadas frias.
Ainda que desça a perpassar recantos
Onde se acolherão mais corpos nus,
é um outro oceano, um outro tempo em outro
diverso em gente organizado mundo.
... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...

Dizia Sena há já alguns anos que "os factos da linguagem, do pensamento e da sociedade sempre me disseram muito mais, enquanto factos, do que um gozo estético que, por profissio-nal que seja, não menos é, sem interpretação deles, irresponsável".

Nunca Sena se alheou por completo dos problemas sócio-políticos, por mais envolvente que fosse o seu com-
prometimento com a literatura. A sua prosa e a sua poesia, em particular, sempre demonstraram uma ligação ao real, e sempre manifestaram, como dissemos já antes, um humor muito pessoal e uma atenção para essas cambiantes do indivíduo domesticado perante a agressão que é viver.


O poder que a sua poesia tem de ser, ao mesmo tempo, digamos que uma interpretação dos clássicos e uma experiência inovadora é o sinal mais claro de que não se isolava em si para escrever.


Alguns dos mais lúcidos e belos poemas que este homem nos deixou são testemunho desse modo de sentir os outros e desse silêncio terrível que é estar no mundo.


Em «America, America, I love you» ficam-nos as histórias contadas pela sua poesia, em que a distanciação da opinião crítica é evidente, ficando-nos uma sedutora arte de contar, a ironia destes versos sobre essa ironia maior que é estar sozinho perante os outros e as coisas.


O encanto e a grandiosidade da sua notável poesia está não só na construção das frases, no arquitectar as palavras uma sobre as outras, mas também na temática que este poeta foi constantemente ligando á sua visão / audição / contacto com as coisas.


Ficou-nos, por vezes, uma amarga ironia acerca dos homens; ficou-nos, por outro lado, um saber dizer poemas de uma maneira muito singular e, ao mesmo tempo (creio que o podemos afirmar), genial.


Ao traduzir poemas que não eram seus, também Sena transformou esse conhecimento da poesia em poemas seus, e a sua arte e erudição apenas vieram aumentar essa sua grande obra e esse seu grande amor pela língua portuguesa.


Lá longe, onde vivia e escrevia, Jorge de Sena trazia para a sua escrita uma visão clara e tão verdadeira que, por vezes, estava mais perto desta terra do que nós, que por cá andamos.

Os poetas se publicam todavia

... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ... ...
Chatins, ladrões e miseráveis fomos
- mas fomos também grandes. Sê-lo-emos,
ainda outra vez, na casa lusitana,
se orgulho de possuí-la não for a mesquinhez
de tê-la como umbigo do universo
em piolhos concentrado entre Melgaço e Vila
Real de Santo António. E que ninguém
venha cuspir-nos, muito menos nós.
E que poetas escrevam disto tudo,
mergulhando no fundo de si mesmos
(lá onde encontrarão sombras de séculos
como as de um povo que resiste a tudo),
e erguendo a fronte altiva em frente ao mundo,
urgentemente, sem pensar-se em mais
que dizer que somos e queremos ser.

(in 40 Anos de Servidão)

João Carlos Costa